31 de jul. de 2009

Paris

Não posso negar que tenho uma certa queda por esta cidade. Por consequência, os filmes nela ambientados sempre me atraem. Este, em especial, é uma homenagem à cidade e seus habitantes, um filme sensível e bonito, que usa como base uma história de morte mas que fala, de forma geral, desta cidade tão bela e ambígua, com seus personagens e circunstâncias.

O diretor e roteirista, Cédric Klapisch, é o mesmo de “Albergue Espanhol” e “Bonecas Russas”, filmes que eu gosto bastante, e o elenco é ancorado por Roman Duris (que estava nos dois anteriores) e a bela Juliette Binoche. Trata-se da história de Pierre, um dançarino que descobre ter um problema cardíaco, que só pode ser resolvido com transplante, e o obriga a ficar em repouso, em casa. De sua sacada, ele passa a observar mais atentamente a cidade e seus personagens.

A partir daí, o filme se desdobra em outras histórias paralelas, que eventualmente se cruzam. Nelas, amor entre um professor mais velho e sua aluna, imigrantes, feirantes, trabalhadores, enfim. Uma gama bem rica de personagens e seu ambiente cotidiano. Paris bela e ao mesmo tempo sem o glamour que normalmente lhe é imputado – o que, de maneira alguma, a torna menos fantástica.

Não há na obra nenhum grande lampejo de genialidade, mas há elementos que eu particularmente aprecio num filme e que o tornam, por isso mesmo, raro. Beleza (fotografia e trilha, que neste filme são muito boas), ritmo, emoção, pessoas e suas relações com sentimentos sinceros, sejam eles tortos ou não. O que sente e como age a irmã que descobre que seu irmão pode morrer - briga com ele por não ter lavado a louça ou não? O que sente a menina que se envolve com o professor mais velho, mas não o ama, e como ele se sente ao vê-la com um rapaz de sua idade, mesmo sabendo que é o caminho mais natural das coisas? E o ex-marido que não suporta a ex-mulher por seu comportamento, e sofre de forma lancinante com sua morte. E o migrante que vive em Camarões e que ‘conhece’ a vida em Paris pelos postais que o irmão lhe envia, e parte daí a construção de seus sonhos. Essas histórias me encantam.

E – sei que me repito, perdoem – ver Paris, com ou sem glamour, é sempre muito bom.

paris

Título original: Paris
Origem/Ano: França – 2008
Duração: 130 min.
Direção e Roteiro: Cédric Klapisch
Sinopse: Dançarino descobre uma doença no coração que o obrigado a ficar em repouso, até que consiga fazer um transplante. Sua irmã muda-se com os filhos para ajudá-lo. A partir daí, ele passa a observar com atenção a cidade em que vive e seus personagens.

5 de jun. de 2009

Dias de Glória

Gostei bastante deste filme que conta um pouco da história sacana da França com seus ‘colonizados’. Boas atuações, especialmente do cativante Jamel Debbouze, aquele da Amélie Poulan, cenas de ação muito bem feitas – com bastante sangue, pra quem gosta, fazem deste um bom filme de guerra, nos padrões tradicionais do gênero, mas que consegue contar uma outra história, tão marcante quanto.

Para reforçar suas tropas durante a 2. Guerra Mundial, a França convocava habitantes de suas colônias na África, sempre ressaltando que sacrificar a vida pela ‘pátria-mãe’ era um dever e uma honra e, em sobrevivendo, viveriam todos em paz sob o trinômio Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

E assim, milhares desses soldados embarcaram na aventura e enfrentaram, além das balas inimigas, um exército de preconceito e desilusão. A história acompanha de maneira mais próxima a trajetória de quatro argelinos e todas as agruras enfrentadas pelo grupo. Mesmo entre os companheiros de trincheiras, eram tratados como inferiores, tinham possibilidades limitados de ascensão na carreira militar e, na França onde nunca haviam pisado, foram tratados como bastardos indesejáveis, mesmo tento arriscado suas vidas por aquela terra.

Me chamou muita atenção uma das primeiras cenas do filme, quando um desses soldados comunica à mãe que vai atender ao chamado e se alistar no exército francês, e a justa incompreensão dela com a decisão. E mesmo diante do apelo desesperado da mãe, movido por aquela promessa de um futuro melhor, longe da miséria em que o próprio colonizador o deixara anteriormente, ele segue em frente.

Depois da guerra, e com a independência das colônias, o governo francês cortou as pensões aos ex-combatentes não-franceses. Injustiça só reparada em 2006, com o lançamento do filme. Grande história, desconhecida da grande maioria. Vale a pena conhecer, até pra relembrar que, na guerra, todo mundo sempre perde – uns mais que os outros, e neste caso, com o perdão do trocadilho confuso, estes ‘uns’ eram os ‘outros’, os não-franceses, a colônia…

Diasdegloria

Título original: Indigènes
Origem/Ano: França – 2006
Duração: 128 min.
Direção: Rachid Bouchareb
Roteiro: Rachid Bouchareb e Olivier Lorelle
Sinopse: Em 1943, 130 mil soldados originários das colônias francesas na África foram para a Europa lutar na Segunda Guerra e ajudar a libertar uma pátria-mãe na qual nunca antes haviam estado. ''Dias de Glória'' conta a história de quatro desses homens, desde a sua convocação em seus países de origem até o fim da Guerra. Vencedor do prêmio de melhor ator no Festival de Cannes de 2006, numa premiação coletiva dada a cinco atores principais do filme (que interpretam os quatro soldados, além do comandante do batalhão).

26 de mai. de 2009

Herói por acaso

A pedido, vou começar uma pequena série com filmes franceses, todos eles muito legais. E começamos com este “Herói por acaso”, um filme belíssimo, engraçado e emocionante.

O enredo trata do período de ocupação nazista na França, quando a população se dividia entre colaboracionistas ou não. Batignole, a bem da verdade, não era um nem outro, mas não queria saber de confusão. Até que seu genro, crítico de arte e colaboracionista, denuncia uma família de judeus que vive no apartamento acima do deles. Durante a prisão da família, o filho consegue se esconder e, junto com duas primas órfãs da guerra, acaba entrando na vida do salsicheiro Batignole. Incapaz de entregar as crianças aos nazistas, Monsieur Batignole embarca numa jornada insana para tirá-las do país e levá-las em segurança até a Suíça. E neste trajeto pela libertação das crianças, Batignole acaba libertando-se também da vida modorrenta e opressora que levava em casa, com a família.

O interessante é que, com grandes atuações, especialmente das crianças, e a graça inata de Gérard Junot (que também é o diretor) com aquele jeitão de pastel, o filme fica extremamente leve e divertido, apesar do tema ‘duro’. É bem verdade que segue um pouco a linha dos filmes do Roberto Begnini, como “A Vida é Bela”. Mas isso não chega a ser demérito nenhum, pelo contrário.

Vale o registro da bela fotografia do filme, com cenas fantásticas de Paris e do interior da França.

heroi_por_acaso_aff Título Original: Monsieur Batignole / On pouvait pas savoir
Origem/Ano: França/2002
Duração: 100 min
Direção: Gérard Jugnot
Sinopse: Paris, 1942. O país está ocupado pelos nazistas. O senhor Batignole é dono de uma salsicharia e, tendo lutado na primeira guerra, não quer mais saber de nada do que acontece na vida do país. Passivo, suporta as humilhações de sua arrogante esposa e o anti-semitismo do futuro genro, que já mora em sua casa. Quando o genro, colaboracionista e aproveitador, denuncia a família judia que mora no andar de baixo, o senhor Batignole nada faz. Mas a omissão lhe será jogada na cara por Simon, filho da família denunciada, que conseguiu se esconder dos nazistas. Protegê-lo será a chance de o senhor Batignole se redimir.

11 de mai. de 2009

Salvador

Quem gosta de filmes históricos, em especial sobre os períodos de ditadura militar em todo mundo – e eu gosto bastante, sabe que este é um gênero em que os brasileiros se especializaram. Saíram por aqui uma série de títulos bem interessantes, como “Batismo de Sangue”, “Zuzu Angel”, “Quase dois irmãos”, “O que é isso, companheiro?”, “Lamarca”, só pra citar alguns que me lembro de cabeça.

Em “Salvador”, a ditadura da vez é a espanhola, sob o comando do Generalíssimo Franco, e o filme conta a história de um jovem, Salvador, que não aceita as imposições do regime e resolve pegar em armas na luta por seus ideais.

Até aí, sem grandes novidades, o enredo é bem conhecido de todos nós. Militância, assaltos à banco, etc. Confesso que até esse ponto, fiquei um pouco entediado, achei um tanto arrastado.

Até o momento em que ele é preso e condenado à morte por um tribunal militar. A partir daí, acompanhar a agonia do condenado à espera da morte, a luta dos advogados em busca de um perdão, a situação da família, enfim, a trama toda vai nos envolvendo de maneira angustiante.

Só pra explicar melhor: na verdade, o filme começa com a sua prisão e, na captura, ao tentar fugir, rola um tiroteiro, em que Salvador é baleado e um policial é morto. A história passada vai sendo por ele, em conversas com o advogado na cadeia, até o momento da prisão, quando começa a parte angustiante.

Gostei muito de uma série de coisas, como o relacionamento que ele desenvolve com o policial dentro da cadeia – os diálogos entre eles são bem interessantes, a relação dele com o pai, enfim. Mas, repito, o que mais me impressionou foi a capacidade do filme, com a interpretação singela do ator, de nos envolver sentimentalmente. Coisa rara hoje em dia…

Trata-se de uma história real, e a família até hoje pede uma revisão do processo. Mais não conto. Por fim – e sei que isso vai soar completamente batido e anacrônico, mas fazer o que… – acho que sempre vale a pena conheceros melhor como era viver sob um regime ditatorial, só pra valorizarmos nossa pouca liberdade e não corrermos o risco de qualquer retrocesso.

salvador-2006-poster02 Título Original: Salvador
Duração: 134 minutos
Origem-Ano: Inglaterra – Espanha : 2006
Direção: Manuel Huerga
Roteiro: Lluís Arcarazo, baseado em livro de Francesco Escribano
Sinopse: A história real do militante, assaltante de bancos e anarquista Salvador Puig Antich (Daniel Brühl), integrante do grupo Movimiento Ibérico de Liberación, cuja execução em 1974, a última realizada na Espanha com o método do garrote, instalou uma polêmica que ajudou a decretar o fim da ditadura franquista e o retorno da democracia ao país.

Uma amizade sem fronteiras

Uma belíssima história de amizade entre um menino francês e um velho imigrante muçulmano na Paris dos anos 60, onde ambos se amparam mutuamente, trocam experiências e ensinamentos, suprem suas carências e crescem juntos. Basicamente é esse o enredo do filme, com uma grande atuação de Omar Sharif.

O filme tem um ritmo leve, com momentos divertidos e outros comoventes. Trata-se de um menino judeu, Momo, entrando na adolescência e vivendo uma fase de descobertas, criado pelo pai completamente relapso, traumatizado por ter sido abandonado pela ex-esposa. Momo conhece Ibrahim, este imigrante argelino, que tem um pequeno armazém em frente à sua casa – o menino vai lá comprar produtos e, por vezes, roubá-los, deixa para o início da relação entre eles…

Com uma atitude diversa da que o menino está habituado, esta relação cresce e Ibrahim passa a assumir, de certa forma, o papel que caberia ao pai na educação do garoto. Essa relação se solidifica, quando o pai do menino também o abandona e ele passa a viver sozinho, vendendo os objetos domésticos – e gastando a grana com as putas da região.

O grande lance do filme está, primeiro, na maneira em que se desenvolve essa relação de afeto entre os dois e nos pequenos detalhes dessa construção, e, depois, na forma como, apesar das diferenças culturais entre eles, seus ensimanentos, baseados no Corão, são absorvidos de maneira suave, sem maiores choques, pelo adolescente ocidental.

Ibrahim repete suas máximas, filosias e regras, e diz ao menino que é isto que está escrito em seu Corão. E no final a gente entende melhor como essa ligação entre eles supera tão facilmente as distâncias culturais. Só pra dar uma pitadinha de beleza: o nome original do filme, em francês, é “Monsieur Ibrahim et les Fleurs du Coran”. Diz muito mais do que “Uma amizade sem fronteiras”.

monsieur_ibrahim

Título Original: Monsieur Ibrahim et les Fleurs du Coran
Duração: 95 minutos
Origem-Ano: França - 2003
Direção: François Dupeyron
Roteiro: François Dupeyron, baseado em livro de Eric-Emmanuel Schmitt
Sinopse: Durante o início da década de 60, Paris, como a maior parte da Europa, era uma explosão de vida. Conforme o velho dava lugar ao novo, tudo estava fluindo na cidade, cheia de energia que prometia mudanças culturais e sociaia. Com esse cenário, em uma vizinhança de trabalhadores, dois personagens distintos - um jovem judeu e um mulçumano idoso - começam uma amizade. Quando encontramos Momo (Pierre Boulanger) ele é um orfão de onze anos embora viva com seu pai, um homem lentamente se deteriorando em uma depressão. Seus únicos amigos são as prostitutas que o tratam com afeição genuína. Momo faz suas compras em uma loja da vizinhança, um lugar escuro e lotado administrado por Ibrahim (Omar Sharif), um homem exótico que vê e sabe mais do que deixa transparecer. Depois que Momo é abandonado por seu pai, Ibrahim se torna o único adulto na vida de Momo. Juntos começam uma jornada que irá mudar suas vidas para sempre.

30 de abr. de 2009

O Signo da Cidade

Grande surpresa dos últimos tempos. Confesso que já tinha passado por ele na prateleira da locadora e dedicado olhares um tanto desconfiados. Foi o texto da amiga jornalista Jade Martins Lenhart que me deixou instigado e, confesso, fiquei positivamente surpreendido pelo trabalho.

Então, como não poderia deixar de ser, presenteio vocês, previamente autorizado pela autora, com o belo texto da Jade (tá no blog dela, o jadices, com um monte de outros belos textos).

“Não é perda, é movimento.”

O enredo é aparentemente banal: uma astróloga discute na rádio os problemas dos ouvintes, palpitando com a ajuda das constelações do firmamento. A idéia é quase simplória: apresentar a diversidade, de sujeitos, de desejos, de sofrimentos, reunida numa metrópole como São Paulo. Outros dados corroboram o pessimismo preventivo: Carlos Alberto Riccelli (lembram do boto?) na direção, o rebento do casal Lombardi-Ricceli num dos papéis principais, e o bufão Juca de Oliveira conduzindo um enredo cravado de situações limites. O resultado, porém, é tão transformador que me fez esperar esta estranha e definitiva semana correr para escrever.

Tentei descobrir por que mexeu tanto comigo, lutei para absorver a frase abaixo, e devo ter absorvido apenas um punhado do belo significado, me empenhei em reconhecer os cantos mais escondidos do talento notório da escrita de Bruna Lombardi, a roteirista da história. Só hoje me arrisco a definir a complexidade tão bonita do filme: O Signo da Cidade é sobre perda, sobre solidão, sobre experiência, sobre vida. Como se não bastasse, ainda conta com uma profundidade plena de sutilezas, tão difícil de encontrar no cinema brasileiro contemporâneo - salvo raríssimas exceções, como O Céu de Suely.

Descontados a beleza da Bruna Lombardi, o roteiro bem estruturado, as personagens interessantes e diferentes, a direção impecável e a trilha suave, triste e distante como um enterro na infância, escancara aquela força, impressionante e espontânea, típica dos sentimentos mais legítimos. Apresenta uma gente dilacerada, perdida entre opções incapazes de aconchegar. Sugere as saídas, aponta alternativas, reconhece a grandeza das falhas e a beleza dos desfechos mais infelizes. Insinua os abandonos obrigatórios, quando não se pode seguir adiante. Enquadra o sofrimento, mas jamais cai no pieguismo. Com maturidade e complacência, aborda a solidão, não a dos carentes mas aquela que nunca cura. Consegue desvinculá-la de uma idéia de tormento, e aproximá-la da ordem da condição. A solidão da condição humana.

Às vezes, é até capaz de suspendê-la, com vagas sugestões que falhariam em mãos menos sensíveis. Em determinada cena, por exemplo, o moribundo tarado, pai da protagonista, implora para não morrer sem assistir à nudez de uma mulher, qualquer mulher, apenas mais uma vez. Uma enfermeira aceita despir-se para ele, num longuíssimo take que alterna a expressão alegre dele com o corpo mole e gordo dela. Sorriem os dois. Dífícil, muito difícil. E corajoso.

Baita filme: duro, doce, triste. Como a vida de qualquer um.

signo

Título: O signo da cidade
Origem – ano: Brasil – 2008
Duração: 95 min.
Direção: Carlos Alberto Riccelli
Roteiro: Bruna Lombardi
Sinopse: Gil (Malvino Salvador) está casado e só. Lydia (Denise Fraga) flerta com o perigo. Josialdo (Sidney Santiago) nasceu para ser mulher. Mônica só quer se dar bem. No programa noturno de rádio, que atende ouvintes anônimos, a astróloga Teca (Bruna Lombardi) se vê entre os anseios dos outros e os próprios problemas. Aos poucos, o destino enreda a todos numa única teia. Na luta para romper o isolamento e achar o rumo da redenção, eles vão descobrir o poder transformador da solidariedade.

Ausência

Quero me desculpar com os quatro leitores deste humilde bloguinho pela longa ausência. Questões pessoais e de trabalho me mantiveram afastado, tanto das postagens como dos filmes. Mas, na medida do possível, falo um pouco aqui sobre alguns bons filmes que andei vendo nos últimos tempos.

Obrigado pela compreensão e, por favor, vocês quatro: não me abandonem!!!

2 de mar. de 2009

Sideways

Este é um filme de 2004, que revi há poucos dias, e que é simplesmente delicioso – quase que literalmente, já que todo o enredo gira em torno do mundo do vinho na Califórnia.

É a história de dois amigos que se reencontram para uma viagem, uma espécie de despedida de solteiro, por pequenas cidades e suas vinícolas, para curtir, relaxar, beber bons vinhos e jogar golfe. Um deles, Miles, é extremamente pessimista, amargurado e cheio de traumas – não consegue publicar seu livro, que escreve há anos,  trabalha como professor e mal consegue se sustentar, foi largado pela mulher e liga pra ela sempre que enche a cara. Já começa o filme roubando uns trocados da mãe… O outro é um fanfarrão, um ator de comerciais à véspera do casório. Quer curtir sua ‘solterice’ até os últimos momentos e, apesar da idade, morre de medo de assumir o compromisso e a vida séria de casado. E nesta trajetória, ambos se deparam com suas angústias, medos e incoerências, que acabam sendo confrontadas, especialmente no encontro com duas mulheres.

Pode, levando em conta esta descrição, parecer chato, mas é o oposto disso. Graças às brilhantes atuações de Paul Giamatti (o atormentado Miles) e Thomas Haden Church (o porra-louca Jack), ao roteiro e direção de Alexander Payne, que fez uma habilidosa adaptação de um livro, o filme ganha frescor, leveza bem dosada e boas pitadas de humor, sem perder a sinceridade.

Além disso, encontrei aqui coisas que prezo muito num filme: belíssima fotografia e cenários fantásticos – daqueles que nos dão vontade de conhecer o lugar, uma boa trilha sonora envolvente, a exposição de tramas humanos tão corriqueiros e ao mesmo tempo tão complexos.

Há alguns diálogos emblemáticos, como aquele em que Miles explica o porque de sua fixação com vinhos pinot noir e a bela resposta de sua interlocutora, que relata as razões de sua paixão pelo vinho. Não vou reproduzir tudo, mas, no finalzinho, depois de contar tudo, ela diz que, além de toda a explicação filosófica de sua paixão, o motivo maior é que, no final das contas, os vinhos são deliciosos.

E acho que dá pra resumir a razão da qualidade deste filme assim: tem um monte de motivos pra ele ser especial, mas acima de tudo ele é delicioso. E perdoem a obviedade, mas não custa a recomendação: este filme se harmoniza perfeitamente com uma boa taça de vinho, claro.

sideways Título original: Sideways
Origem – ano: EUA – 2004
Duração: 123 min.
Direção: Alexander Payne
Roteiro: Rex Pickett, Alexander Payne e Jim Taylor
Sinopse: Escritor fracassado e recentemente divorciado junta-se a um amigo, um ator aposentado, para uma viagem à Califórnia - na região produtora de vinhos. Lá eles discutem suas vidas e os motivos que levaram ao fim de seus relacionamentos.

20 de fev. de 2009

Vicky Cristina Barcelona

Filmaço do mestre Woody Allen, adorável mesmo para quem não é fã dele. Segue na sua ‘jornada européia’, bem diferente dos seus filmes nova-iorquinos.

Há quem não tenha gostado muito dos anteriores, como Match Point, Scoop ou o Sonho de Cassandra. Mas acho muito difícil não gostar deste. E dou algumas simples e indiscutíveis razões. O filme é rodado em Barcelona, que está exuberante, e em cidades do interior da Espanha, como a belíssima Oviedo – portanto, tudo lindo demais. A trilha sonora é deliciosa. O Javier Barden está muito bem como o pintor galante e dividido de amor Juan Antonio. Mas o que dizer da trinca feminina, com a musa do Wood Allen, Scarlet Johansson, Rebecca Hall e a exuberante e explosiva Penélope Cruz? Fantásticas, as três.

Como se não bastasse tudo isso, o roteiro é bem interessante. A proposta franca de Juan Antonio às duas turistas americanas em férias na Espanha – sexo, comida e vinho – dá início à uma série de triângulos amorosos, onde seus integrantes se deparam com sentimentos, dúvidas, desejos, medo, decepção, conformidades, etc…

E, juro, deu muita vontade de conhecer a Espanha, mesmo que sem a Penélope Cruz e a Scarlet como guias…

vickycristinabarcelonag Título Original: Vicky Cristina Barcela
Direção e roteiro: Woody Allen
Origem-Ano: Espanha : 2008
Duração: 96 min
Sinopse: Duas jovens americanas - a conservadora Vicky (Rebecca Hall) e a aventureira Cristina (Scarlett Johansson) - viajam para Barcelona a fim de passar as férias de verão e acabam se envolvendo em confusões amorosas com um artista extravagante e sua insana ex-esposa.

22 de dez. de 2008

Queime depois de ler

Os irmãos Coen estão de volta neste filme delicioso. Nem parece que são os mesmos diretores de “Onde os fracos não têm vez” – respeito opiniões em contrário, mas sinceramente não me agradou. Este é o oposto, um filme bem mais leve, uma comédia ‘pura’, mas com aqueles enredos de confusões bem caprichado.

A história, na verdade, é bem simples, mas ao mesmo tempo genial. Um agente da CIA de terceira categoria é demitido e resolve escrever suas memórias. Sua mulher, que o trai com um canastrão também de terceira, prepara a separação e rouba do computador todos os seus arquivos que, por ironia do destino, acabam nas mãos de dois funcionários de uma academia de ginástica. Estes tentam tirar proveito e estorquir o agente e até vender o material para agentes russos – imaginando que ainda estão na guerra fria. E a partir daí, uma série de encontros e desencontros se desenrolarm de forma muito engraçada.

O grande trunfo do filme está nas atuações magistrais de John Malkovich, Frances McDormand, Brad Pitt e George Clooney, entre outros. Estão, todos, muito engraçados. O roteiro também está bem redondinho, com diálogos bem construídos e algumas tiradas satíricas bacanas. E algumas pitadas de violência, só para apimentar.

O filme tem crítica à sociedade americana, à CIA e o modo de vida de seus agentes e à mais um bocado de coisa. Mas isso tudo fica menor frente, vira pano de fundo, para uma única e final impressão: é uma comédia, e das boas – sem estupidez e obviedades. Diversão garantida, para qualquer público.

queime Título original: Burn After Reading
Direção: Ethan Coen, Joel Coen
Roteiro: Joel Coen, Ethan Coen
Origem/Ano: Estados Unidos - 2008
Duração: 96 minutos
Site: www.burnafterreading.com--live.com/
Sinopse: Ao ser demitido por alcoolismo, o veterano da CIA Osborne Cox decide escrever um livro revelando segredos do governo. Ao saber disso, sua mulher Katie rouba os arquivos para usar contra ele no processo de divórcio. Acidentalmente, o material cai nas mãos de dois funcionários de uma academia nos subúrbios de Washington, Linda e Chad. Visando arranjar dinheiro para pagar as cirurgias plásticas que Linda sonha em fazer, eles chantageiam Cox. Uma série de encontros e desencontros levam a um desfecho surpreendente e engraçado.

5 de dez. de 2008

Vivendo e aprendendo

Este filme me surpreendeu positivamente. Segue uma linha de comédia inteligente americana, bem leve, divertida, apesar de alguns clichês básicos, mas perdoáveis. As atuações estão ótimas, especialmente da Ellen Page (a Juno), que é uma graça, e de Thomas Haden Church, engraçadíssimo – o cara do “Sideways”, outro filme bem bacana. Do núcleo central, o Denis Quaid também é bom e tem a Sarah Jessica Parker, garotinha Sex and the City, que eu particularmente não gosto.

O cara é um professor universítário que se acha o ser mais inteligente da face da terra, extremamente egocêntrico e pedante, e não dá a menor bola pra ninguém. Até que conhece a superloira, eles se apaixonam e o cara começa a mudar suas posturas. Até aí, nada de grandioso. O legal está nos detalhes, nos diálogos bem construídos, na tentativa da menina problema de seguir os passos do pai e, assim, atrair sua atenção, no filho que quer distância do pai e leva sua vida alheio ao conceito de sucesso daquela família, e no louco do irmão adotivo, que bagunça e ao mesmo tempo humaniza todas as relações entre eles.

O que menos me interessou, na história toda, foi o caso de amor entre a Sex Girl e o professor, é o catalisador da mudança na vida dele – e ai está o clichê previsível, mas perdoável.

Se bem que isso é chatolice minha, pegação-de-pé na fórmula das comédias românticas americanas – ando meio traumatizado com uma porcariada que vi esses tempos. Pra quem gosta de um romancezinho divertido, e isso não faz mal a ninguém, é bem legal.

smart-people-poster-quaidVivendo e aprendendo
Título original: Smart People
Origem–ano: EUA – 2008
Duração: 95 minutos
Direção: Noam Murro
Roteiro: Mark Jude Poirier
Sinpose: A difícil relação do professor universitário de inglês viúvo Lawrence Wetherhold com seus filhos James e Vanessa Wetherhold e um irmão adotivo atrapalhado. Inconformado com a morte de sua esposa, o professor se torna uma pessoa depressiva e amarga, mas encontra em Janet a possibilidade de uma novo amor.

22 de nov. de 2008

A vida é um sopro

Na mesma balada do Vinícius, seguimos para outro filme sobre os homens eternos, este com o centenário Oscar Niemeyer.

Documentário lindo, sobre um cara que foi, antes de qualquer coisa, coerente. Coerente com o que acredita, com sua história, sua arte, seu tempo. E até hoje está aí, dando aula, dando show…

Só tem uma coisinha que eu queria contar. O filme do Vinícius termina com uma brincadeirinha, onde estão Chico Buarque, Toquinho e Carlinhos Lyra. Eles lembram que, certa vez, perguntaram ao Vinícius como ele queria ser quando reencarnasse. O poeta contou que queria ser igualzinho, do jeintinho que veio… Só com o pau um pouquinho maior…

Já o documentário do Niemeyer termina com uma resposta no mesmo nível. Depois de falar de arquitetura, arte, política, Brasil e mundo, perguntam à ele o que lhe dá prazer hoje, o que vale na passagem dessa vida, que é um sopro, e ele responde: o importante é mulher, o resto é brincadeira…

Uma lição do filme – se é que estou à altura de interpretar alguma: você só se torna gigante quando aprecia o que está mais perto de ti, o que é mais simples, o que verdadeiramente vale a pena. Tem que ser - e saber  que é - pequeno, minúsculo. Todo resto é brincadeira…

De novo: assistam e apaixonem-se.

oscar

Duração: 90 minutos
Origem/Ano: Brasil : 2007
Direção: Fabiano Maciel
Roteiro: Fabiano Maciel
Sinopse: A história de Oscar Niemeyer, um dos mais influentes arquitetos brasileiros no século XX. Mostra como Niemeyer revolucionou a Arquitetura Moderna com a introdução da linha curva e a exploração de novas possibilidades de uso do concreto armado, além de seus pensamentos sobre a vida e o ideal de uma sociedade mais justa.

Vinícius de Moraes

Você já foi ver poesia, nega? Não? Então vá...

Sinceramente, não posso falar muita coisa sobre esse filme.

Posso dizer que é sobre Vinícius de Moraes. Dito isto, não há muito mais a se dizer. Posso contar que tem Chico, Caetano, Gil, Carlos Lyra, Edu Lobo, Francis Hime, Ferreira Gullar, além de cenas de arquivo lindas, com Tom Jobim e tudo mais, que tem texto do Rubem Braga no começo e no fim, que tem o Zeca Pagodinho, o Yamandú Costa, a Martinália e mais uma galera cantando as músicas dele, que tem o Rio, Paris, Nova York, que tem amor, beleza, tristeza e alegria, que tem parte da história da música desse país... Mas dizer isso é tão pouco quando se fala de Vinícius...

Na verdade, eu passaria horas aqui discorrendo sobre como me apaixonei pra sempre por este homem, e de como eu gostaria que todo mundo se apaixonasse por ele também. Mas prefiro deixar pra vocês só a dica e um textinho dele, coisa pouca...

Quem já passou
Por esta vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá
Pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou
Pra quem sofreu, ai
Quem nunca curtiu uma paixão
Nunca vai ter nada, não
Não há mal pior
Do que a descrença
Mesmo o amor que não compensa
É melhor que a solidão
Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair
Pra que somar se a gente pode dividir?
Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer
Ai de quem não rasga o coração
Esse não vai ter perdão

clip_image001

Ano/Origem:Brasil : 2005
Duração: 124 min.
Direção: Miguel Faria Jr. 
Roteiro: Miguel Faria Jr. e Diana Vasconcellos, com colaboração de Eucanaã Ferraz 
Produção: Miguel Faria Jr. e Susana Moraes 
Música: Luís Cláudio Ramos 
Fotografia: Lauro Escorel

21 de nov. de 2008

Jogos de Poder

Este é um daqueles filmes que comporia uma série imaginária “pra entender o mundo um pouco melhor…”. Os caras reuniram um belo elenco para contar a história de como um congressista americano abraçou uma causa, a princípio, maluca e perdida, com parceiros ainda mais esdrúxulos e, quando parece que, contra todas as chances, o cara vence a batalha, aí é que está feita a m… Ah, já ia esquecendo: o filme é baseado na história real do tal congressista.

Começo falando do elenco, que reúne uma trinca de primeiro time: na ponta, o oscarizado Tom Hanks, no papel do congressista Charlie Wilson, um texano que não estava nem aí pra hora do Brasil – ou melhor, dos States. Tem também a eterna pretty woman, Julia Roberts, numa interpretação honesta de uma socialite bem relacionada nos meios políticos que abraça causas humanistas mundo afora. E, finalmente, o cara que, pra mim, é um dos maiores destaques do cinema americano dos últimos anos, Philip Seymour Hoffman, impagável interpretando um agente da CIA, que às vezes é um babaca, mas é sempre genial. Parênteses: depois vou falar sobre outros filmes com ele, também ótimos. Fecha.

Agora imagina a loucura: essa socialite convence o congressista a embarcar numa batalha para armar a população afegã, que sofre ataques constantes do exército soviético, em plena guerra fria. O cara vai atrás do que está acontecendo e descobre que a participação americana na história é ridícula. Para montar uma estratégia, recorre à CIA, que manda sua equipe especializada em Afeganistão: um agente pentelho, que estava na geladeira porque brigou com o chefe, que o expulsara de uma missão anterior. Pra fazer tudo isso funcionar, os caras ainda tem que buscar aliados como Israel e Egito. E, é claro, só funciona porque o Charlie, que adorava uma farra e conhecia como ninguém os corredores do poder, sabia operar politicamente com maestria, e acabava conquistando apoios decisivos – daquele jeitinho mesmo que a gente imagina que político opera. Fato é que deu certo e ele aumentou o orçamento destinado aos afegãos de US$ 5 milhões para mais de US$ 1 bilhão por ano.

Contando assim, pode parecer um daqueles filmes politizados, com uma história intrincada, daqueles que, se você piscar, já tem que rebobinar a vida (tem dó, né… a gente sofria com esses VHS’s) pois não vai entender mais nada. Muito pelo contrário, o filme é divertido, dinâmico, envolvente, com diálogos bem escritos e interpretações muito boas.

E, de lambuja, você ainda pode entender um pouco melhor nosso mundo hoje.

jogospoderCharlie Wilson's War
Origem-Ano:
EUA - 2007
Duração: 97 min
Direção: Mike Nichols
Roteiro: Aaron Sorkin, George Crile
Sinopse: Drama baseado na experiência do congressista texano Charlie Wilson, que, mesmo sob disfarce, passou momentos tensos no Afeganistão. Wilson estava naquele país durante a guerra contra os soviéticos e manteve relacionamento estreito com os rebeldes afegãos. Baseado no livro escrito por George Crile.

14 de nov. de 2008

Paris, eu te amo

Ai, ai… Eu também…

Assisti pela segunda vez esse filme, e sempre acabo assim, suspirando no final. Não me entendam mal, não sou daqueles de chorar em cena de novela das oito, mas olhem bem: um filme inteiro falando de amor, em suas mais diversas formas, e ainda por cima tendo Paris como cenário e coadjuvante permanente, merece um bom suspiro, não?

O filme é composto de 18 curtas, de 5 minutos cada, dirigidos por 21 grandes nomes do cinema mundial. Para todos eles, o mesmo tema: Paris e amor. Cada um pegou um dos “arrondissements” ou bairros parisienses, e desenvolveu sua história. Nesse caldeirão entrou comédia e tragédia, alegria e tristeza, amor hetero e homo, carnal e transcedental, perda, solidão, religião, imigração, enfim. A maioria deles é muito legal, alguns fantásticos – o último, pra mim, é dos melhores. Particularmente, um ou outro não me agradou, mas nada que possa se chamar de completamente ruim.

E, além de tudo isso, tem Paris. Só a cidade já ajuda na fotografia de qualquer filme, e a turma ainda se esmerou. Tá tudo bonito demais. Em algumas cenas, a cidade está esplendorosa.

Sei que acabei sendo repetitivo, usando clichês e tudo mais. Sem problemas, nem me desculparei. É que, pra mim, isso é incontestável: história de amor, quando bem contada, é linda demais, e em Paris, fica ainda melhor. Assistam e apaixonem-se.

paris2 Título Original: Paris, Je T'Aime
Duração: 116 minutos
Origem-Ano: França – 2006
Direção: Olivier Assayas (segmento "Quartier des Enfants Rouges"), Frédéric Auburtin e Gérard Depardieu (segmento "Quartier Latin"), Gurinder Chadha (segmento "Quais de Seine"), Sylvain Chomet (segmento "Tour Eiffel"), Joel Coen e Ethan Coen (segmento "Tuileries"), Isabel Coixet (segmento "Bastille"), Wes Craven (segmento "Père-Lachaise"), Alfonso Cuarón (segmento "Parc Monceau"), Christopher Doyle (segmento "Porte de Choisy"), Richard LaGravenese (segmento "Pigalle"), Vincenzo Natali (segmento "Quartier de la Madeleine"), Alexander Payne (segmento "14th Arrondissement"), Bruno Podalydès (segmento "Montmartre"), Walter Salles e Daniela Thomas (segmento "Loin du 16ème"), Olivier Schmitz (segmento "Place des Fêtes"), Nobuhiro Suwa (segmento "Place des Victoires"), Tom Tykwer (segmento "Faubourg Saint-Denis"), Gus Van Sant (segmento "Le Marais") e Emmanuel Benvihy (transições).

13 de nov. de 2008

Dois perdidos numa noite suja

Gosto muito desse filme. O pano de fundo da história de “Dois Perdidos” é bem conhecido: dois imigrantes brasileiros ralando pra 'fazer a América' e passando os maiores apertos e dificuldades. Até aí, nada demais. O legal desse filme é o que rola entre eles, as conversas quando estão em casa - na verdade, uma espécie de galpão, aqueles estereótipos de fábrica abandonada, com tubulação aparente e tudo mais, bem caótico, como é toda a relação desses dois, tentando sobreviver em Nova York, tentando falar, tentando amar.

Vou explica melhor: o filme é uma adaptação do José Jofily (o diretor do Pixote) para a peça do Plínio Marcos, de 1966. O autor ficou conhecido por seu teatro marginal - Navalha na Carne, inicialmente censurada pela ditadura, gerou uma polêmica gigante. Para adaptar a peça pros dias de hoje, o diretor trouxe os dois pros EUA, acentou algumas tons de marginalidade, acrescentou elementos como a sexualidade de Paco, misógena e sensual – no original, era um homem, e conseguiu fazer tudo isso com uma delicadeza fantástica, bem diferente do Pixote, que era mais agressivo, direto.

Aí temos o Roberto Bontempo interpretando com perfeição o Tonho, um mineiro tímido, inocente, sincero, trabalhador, meio com cara de bobo, e a Débora Falabella interpretando Paco, inteligente, arrojada, misteriosa, violenta. Só um drops do encontro deles: o Paco é uma menina, que se passa por menino, e sobrevive fazendo sexo oral em velhos americanos vidrados em garotinhos. Um deles descobre, em um banheiro público, que trata-se de uma menina e tenta agredir Paco. Tonho limpava o banheiro e quando viu a briga, nocauteou o gringo.

A partir daí, começa uma relação conturbada, em que os traços psicológicos dos dois se misturam às dificuldades de imigrante, de duro, fodido, e eles passam a se machucar mutuamente, ao mesmo tempo em que desenvolvem um amor enorme. E inviável. Tudo ali é inviável.

Pra fechar a conta, uma belíssima canção, feita para o filme, pelo Arnaldo Antunes. Maravilhoso.

2-perdidos-numa-noite-suja-poster01 Direção: José Joffily
Roteiro: Paulo Halm
Fotografia: Nonato Estrela
Origem/Ano: Brasil - 2002
Duração: 100 minutos
Sinopse: Dois Perdidos Numa Noite Suja narra o encontro explosivo de dois brasileiros que, como tantos outros imigrantes dos anos 90, trocaram a falta de perspectiva do país pela ilusão do sonho americano. Depois de um encontro casual, Tonho convida Paco para dividir um galpão abandonado. Tonho é tímido, humilde, sincero. Paco é misteriosa, arrojada, agressiva. Fora a condição de estrangeiros, aparentemente não têm nada em comum. Ele está cansado de subempregos e quer voltar para o Brasil. Ela quer virar uma pop-star e vender mais discos que a Madonna. Por necessidade, falta de opção e solidão Tonho e Paco passam a viver um cotidiano infernal, fruto de ressentimento, frustrações, violência e uma inusitada história de amor. A convivência forçada desses dois imigrantes à margem da sociedade irá revelar de forma crua e despudorada a falência da esperança de uma vida mais digna. O desespero crescente leva Paco e Tonho a aplicarem golpes cada vez mais arriscados. A diferença de temperamentos e objetivos provoca confrontos cada vez mais violentos com um final tão doloroso quanto inesperado.

11 de nov. de 2008

Truffaut – Série Antoine Doinel

Depois de um longo e tenebroso inverno, estamos de volta. E para compensar a ausência, trago um presente. Vou falar um pouco sobre a fantástica série de filmes do François Truffaut sobre seu personagem predileto, Antoine Doinel. Simplesmente apaixonante. Eu estou particularmente encantado por Truffaut, e depois há outros filmes muito bons dele, que pretendo comentar aqui. Mas pra quem nunca viu nanda dele, esta série é o começo perfeito. Por tudo isso, merece um post especial, com um pouco mais de fotos para ilustrar. Espero que gostem!

Bom, pra começar, o Antoine Doinel era uma espécie de alter ego do próprio Truffaut. Então, tem umas coisinhas sobre ele que vale a truffaut pena contar. O Truffaut teve uma infância e adolescência bem sofrida: nunca conheceu o pai biológico, foi rejeitado pela mãe e criado pelos avós maternos até os 10 anos. Quando a avó morreu, voltou a viver com a mãe e um padastro – que lhe emprestou o sobrenome, mas que ainda o rejeitavam violentamente. Ia mau na escola, até abondoná-la, quando começou a praticar pequenos furtos. Enfim, a essas alturas, já tinha uma paixão muito grande pelo cinema, plantada pela avó falecida, e com 14 anos fundou um cine-clube. Óbvio, o clube não deu certo, mas fez barulho. E um grande crítico e também dono de cine-clube, André Bazin, se sensibilizou com o menino cinéfilo e o ‘adotou’. Virou um tutor intelectual e pai adotivo de Truffaut. Livro daqui, filme dali até que o Truffaut se transformou num dos grandes nomes da Novelle Vague, primeiro como crítico e depois como cineasta, revolucionou o cinema francês e influencia, até hoje, gente no mundo inteiro, com suas obras fantásticas, eternas.

Mas eu comecei falando do Antoine Doinel, que é o personagem – jean1 atenção, não se percam! Um dos primeiros filmes do Truffaut, o primeiro autobiográfico e o que projetou seu nome no mundo, foi o Le 400 Coups, ou Os imcompreendidos - que conta a infância e adolescência do Doinel. Para o papel, ele escalou Jean-Pierre Léaud, então com 14 anos. É claro, a história se repetiu e Léaud transformou-se também em pupilo e meio que filho de Truffaut. E assim o Truffaut seguiu fazendo filmes com o Jean-Pierre por mais 20 anos, com ou sem o Antoine Doinel.

claude-jade2 A série começa com "Os Incompreendidos", seguido de um curta chamado "Antoine et Colette", que compõe o filme "Amor aos 20", uma coletânea de curtas de vários diretores. Depois vem "Beijos Proibidos / Baisers Volés", que apresenta a encantadora Claude Jade, por quem o Truffaut caiu em perdição, largou a mulher milionária e se casou, perdido de amor. jean2Na seqüência, também  com a dupla campeã Jean-Pierre/Claude Jade, "Domicílio Conjugal". A série  encerra com "Amor em Fuga", que traz de volta a não menos linda Collete, de quase 20 anos antes. Todos os filmes são maravilhosos.

antoineetcolette Tudo me encanta nos filmes do Truffaut: os roteiros perfeitos, inteligentes, sensíveis, a narrativa fluente, a fotografia deslumbrante, as trilhas sonoras, uma mais perfeita que a outra, e por aí vai. Dava pra falar muito dele, mas aí entramos em outra seara. Já me estendi demais. Vamos aos filmes.

Ah, pra quem quiser, a série está à venda, foi lançada pela Versátil Home Video. Você encontro os filmes avulsos ou num box, bonitão.

osimcompreendidos Os imcompreendidos 
Título Original:
Le 400 Coups
Origem-ano: França - 1959
Duração: 99 minutos
Sinopse: Este é o primeiro da série e a história dele já está bem contada lá em cima. O Antoine Doinel é maltratado pela mãe e pelo padastro e começa a aprontar deliciosas travessuras na escola - a cena em que a turma sai para um passeio na cidade e, pouco a pouco, todos fogem do professor, é ótima. Apanha da mãe, é expulso, vai para um reformatório, enfim... É a infância do Truffaut retratada em filme. Fantástico. Quem conseguir este DVD que está aí na foto, poderá ver também o curta Antoine e Colette, de 1962. Aqui Doinel volta à Paris para morar sozinho, arruma pequenos bicos, reencontra amigos e se apaixona, por música, arte e por Colette. É o início da juventudade e da saga de amores de Doinel.

beijosroubados Beijos Proibidos
Título Original: Baisers Volés
Origem-ano: França - 1968
Duração: 87 minutos
Sinopse: Neste filme, Antoine está apaixonado por Cristine Darbon, a bela Claude Jade, e além disso tenta se estabelecer profissionalmente - como guarda noturno, detetive particular e vendedor de sapatos. Aqui ele descobre o amor e fica explícito seu eterno desiquilíbrio, cheio de graça, emocional e profissional. As trapalhadas de Doinel são divertidíssimas. Um lance bacana que já começou a aparecer no curta anterior e fica mais evidente aqui é que o Antoine sempre se apaixona não só pela mulher, mas principalmente pela família.

domicilio Domicílio Conjugal
Título Original:
Domicile Conjugal
Origem-ano: França - 1970
Duração: 94 minutos
Sinopse: Antoine casa-se com Cristine e vivem juntos as delícias e frustações do casamento. Antoine ama, briga, tem um filho, trai e, depois de tudo, ama de novo, mais ainda. Vemos presente a eterna inquietude de Antoine, que em determinado ponto atinge Cristine também. Este filme é maravilhoso, um dos meus prediletos de toda a série.

amoremfuga Amor em Fuga
Título Original:
L'amour en fuite
Origem-ano: França - 1979
Duração: 91 minutos
Sinopse: Aqui a série chega ao fim. Depois de terminar a relação com Cristine, Antoine, com 35 anos, tem uma nova paixão, Sabine. Sua relação com ela também está em crise, com surge Colette. Eles se encontram acidentalmente e voltam a conversar - Colette havia descoberto o livro escrito por Antoine, que passava a limpo sua infância, seus amores, sua vida. E por uma boa parte do filme, por meio de um animado bate-papo entre Cristine e Colette, toda história de Antoine Doinel é revista, com belas cenas de todos os filmes anteriores. E justamente quando se evidencia toda a confusão emocional e a instabilidade com as mulheres de Doinel, ele encontra seu grande amor, numa história de paixão à primeira vista muito bem bolada. Este filme é ótimo, encerra a série de forma perfeita, mas ainda nos deixa com uma pulga atrás da orelha, imaginando o que Antoine vai aprontar da próxima vez…

5 de out. de 2008

Elsa e Fred

Pegue uma belíssima história de amor - mas daquelas boas, que a gente fica torcendo pros dois ficarem juntinhos e felizes para sempre. Agora tire dela tudo o que for de convencional, brega, besta, enfim, todos os esteriótipos. Adicione muito humor, sinceridade, emoção, além de uns 60 anos de idade ao que você imaginava para os protagonistas. Coloque tudo em cenários deslumbrantes, como Madrid e Roma - aliás, Roma vestida pra festa, em dia de gala. Pronto, agora já podemos começar a falar de Elsa e Fred.

Assim como o Fred, que era um velho amargurado e ranzinza, a gente também acaba se apaixonando pela Elsa, que na flor de seus cerca de 80 anos, é espevitada, bagunceira, mentirosa, mas, acima de tudo, extremamente divertida e ainda sonhadora. Ela acaba remexendo completamente a vida do Fred, que se deixa levar por suas idéias e embarca nesta aventura romântica, quando achava que seu destino era esperar sentado a morte chegar.

Uma das coisas mais bacanas deste filme é que, apesar de explorar um tema que não é novo e é carregado de esteriótipos, o diretor consegue encontrar ângulos completamente diferentes, sem que pareçam falsos demais, e ao mesmo tempo foge de todos os lugares-comuns.

Não há como sair incólume deste filme, sem uma risada, sem uma lágrima, sem um momento de reflexão, sem os olhos brilharem ao ver a Fontana di Trevi...

Assistam ao trailler aqui.

elsa-e-fred-poster01 Título Original: Elsa y Fred
Duração: 108 minutos
Origem-Ano: Espanha – Argentina : 2005
Direção: Marcos Carnevale
Roteiro: Marcos Carnevale, Marcela Guerty e Lily Ann Martin
Produção: José Antonio Félez
Música: Lito Vitale
Fotografia: Juan Carlos Gómez
Sinopse: Uma incomum e divertida história de amor. Fred é um senhor recém viúvo e apático que vê a sua vida ser completamente transformada ao conhecer a extravagante Elsa, uma inquietante senhora com espírito jovial e aventureiro. Ela é uma mulher de 83 anos que sonha em conhecer Roma e ele é um homem de 80 anos que começa a viver a vida.

Bonecas Russas

Como toda sequência, o único problema aqui é que você assiste buscando encontrar o que tinha visto no primeiro. E como esse filme não é "Rambo" nem "X-Men", você não vai encontrar a mesma coisa. Mas, sem dúvida, é outro grande filme.

Se passa cinco anos depois do "Albergue", o protagonista virou um escritor, mas que ainda sonha em escrever suas próprias histórias. Enquanto isso, vai aceitando trabalhos que lhe pagam, mas não lhe proporcionam tanto prazer. Em um destes, volta a ter contato com uma das antigas colegas  de albergue, a inglesinha Wendy, por quem ele tinha uma queda. E a história segue, mostrando como caminhou a vida da maioria deles...

A receita básica de graça e e sensibilidade para explorar os dramas pessoais está mantida, com a mesma maestria. Com uma fotografia belíssima, a câmera passeia por cenários em Paris, Londres e São Petersburgo, com imagens deslumbrantes.

bonecas-russas-poster02-774975 Título Original: Les Poupées Russes
Duração: 125 minutos
Origem-Ano: França – Inglaterra : 2005
Direção e roteiro: Cédric Klapisch
Fotografia: Dominique Colin 
Sinopse: Agora com trinta e poucos anos, Xavier (Romain Duris) trabalha como escritor de telenovelas e jornalista free-lancer, mas sonha poder ser livre para escrever suas próprias histórias. Ele continua em contato com sua ex-namorada Martine (Audrey Tautou), agora mãe solteira. Dividido entre Wendy (Kelly Reilly), a amiga britânica, e uma modelo, Xavier conta com a ajuda de Isabelle (Cécile d

Albergue Espanhol

Depois do "Tapas", me lembrei de alguns belos filmes que tinham a Espanha como cenário. Um deles, que já se tornou clássico, é o "Albergue Espanhol" - na verdade, uma co-produção França - Espanha.

A história é bem simples: em estudante de economia recebe uma tentadora proposta de emprego na burocracia francesa, só que para isso precisa saber espanhol. Resolve entrar para um famoso programa de intercâmbio e passar um período em Barcelona. Chegando lá, a convivência com as outras pessoas e com si mesmo acabam transformando sua vida. Tá na sinopse, lá embaixo.

Ok, até aí nenhuma grande novidade. Mas o interessante está no que acontece no meio, no jeito como as coisas se desenrolam e na graça e sensibilidade que o diretor usa para mostrá-las. O cara era extremanente reprimido - pela mãe, pela namorada (ela mesmo, a Amélie), pelo trabalho, por tudo. Chega cheio de medos e totalmente inexperinente na Espanha, em uma Barcelona efervescente e, depois de um pequeno período morando com um casal francês, Xavier consegue uma vaga nessa casa, alugada por estudantes como ele, mas de várias partes do mundo. Tem holandês, alemão, inglês, belga, e por aí vai. Ai, que frase batida que vou cometer, mas vá lá: ali ele aprende não só espanhol, mas lições que transformarão sua vida... (perdoem, não resisti).

Todas as diferenças entre eles e as situções em que se envolvem são muito engraçadas, o elenco está bem legal e, como se não bastasse, o filme mostra bastante Barcelona, que está belíssima. No próximo post, falo da sequência dele, o Bonecas Russas.

 Aubergeespagnole_2002_poster Título Original: L'Aubergue Spagnole
Duração: 115 minutos
Origem-Ano: França – Espanha : 2002
Direção e roteito: Cédric Klapish
Fotografia: Dominique Colin
Sinopse: Xavier (Romain Duris) tem 25 anos e está terminando o curso de Economia. Um amigo de seu pai lhe oferece um emprego no Ministério da Fazenda, mas para assumir o posto o rapaz precisa saber a língua espanhola. Ele decide acabar seus estudos em Barcelona, para aprender a língua. Para isso vai ter que deixar Martine (Audrey Tatou), sua namorada há quatro anos. Ao chegar em Barcelona Xavier procura um apartamento no centro da cidade e acha um em que deve morar com sete estudantes, todos estrangeiros. Com eles Xavier vai descobrir a autonomia e a sexualidade e iniciar a vida adulta.